REIMS de 07/05 a 10/05/2015 - A Belíssima Região de Champagne!

Chegamos à Reims à noite e logo descobrimos que isso não é uma boa opção para quem viaja com motorhome. Primeiro porque fica bem mais difícil obter informações, já que o Ofício de Turismo funciona apenas no período diurno e a maioria do comércio também. Em segundo lugar, porque chegar dirigindo numa cidade em que você nunca esteve é uma tarefa arriscada. mesmo com o GPS nas mãos. É que mesmo sendo uma ferramenta indispensãvel para esse tipo de viagem, o GPS não pode prever, por exemplo, ruas muito estreitas, túneis baixos demais ou obras na pista, o que costuma ser uma surpresa muito desagradável para quem está dirigindo um motorhome com mais de 3 metros de altura. Felizmente, não tivemos nenhum problema nesse sentido em Reims, apensar dos sustos. Eu juro que passamos por um túnel que deveria ter só alguns centímetros a mais do que a altura do nosso veículo.

Reims não tem nenhum camping para motorhome, e nós já sabíamos disso. A alternativa era ficar em uma das duas áreas para estacionamento disponíveis. Nós escolhemos a que tinha menos recursos, mas ficava ao lado de um parque fantástico, chamado Parc Leo Lagrange), com muitas árvores, área de recreação e um gramado de dar inveja a qualquer estádio de futebol. Era, na verdade, o estacionamento de motorhomes do estádio de futebol de Reims (Estade Auguste Delaune), sem conexão elétrica, de água e sem área de descarte de águas usadas. Como o motorhome possui uma autonomia média de 3 ou 4 dias, que seria o período de nosso estadia na cidade, não tivemos problemas. Depois acabamos descobrindo que a outra área de estacionamento (essa sim com conexão elétrica, água potável e local para descartes) ficava do outro lado do estádio. Era uma área oferecida pela Prefeitura de Reims e, para entrar, é necessário digitar uma senha no portão eletrônico (dica: há uma placa próxima ao portão com um número de telefone para solicitar a senha, mas você precisará ter uma linha de celular da França e, é claro, falar francês). Fomos lá por duas vezes para garantir mais conforto nesses dias, mas não dormimos lá porque ficava bem ao lado de uma rua muito movimentada, o que certamente prejudicaria nosso sono.

Bom, feitas essas observações, falemos agora dos prazeres de Reims. É o coração da região de Champagne, lar das prestigiosas maisons dessa bebida dos deuses, caracterizada por pequenas e charmosas cidades, onde um clima calmo e agradável paira no ar. Muita área verde para o deleite de todos, como o parque situado bem em frente ao estacionamento do nosso motorhome. Vocês podem sentir nas fotos abaixo um pouco do que estou falando. Depois de sair do agito da Disney, encontramos um clima delicioso para aproveitar os dias e privilegiar a contemplação. Reims é assim: calma e agradável. Embora não seja tão pequena quanto as demais cidades da região, preserva muito bem a sua história, enquanto possui muitos aspectos de uma cidade moderna e desenvolvida.

Nosso primeiro compromisso foi, portanto, todo o deleite e o relaxamento de algumas horas no nosso amplo quintal e área de lazer (Parc Leo Lagrange), interrompido, apenas, pelo delicioso almoço preparado pela Sidi no motorhome. Lá pelo meio da tarde, partimos a pé para conhecer o centro histórico da cidade, um passeio agradável até a Catedral de Notre-Dame de Reims e o Palais du Tau. Daria para falar por horas só sobre esses dois locais. A Catedral começou a ser construída no século XIII (quase 300 anos antes de Cabral chegar ao Brasil), e se constitui num dos maiores representantes da arte gótica na França, o que a tornou patrimônio histórico mundial da UNESCO. Foi construída sobre a ruínas de uma antiga igreja que existia no local desde antes do ano 498, quando o Rei Clóvis I foi ali batizado, convertendo-se ao catolicismo. Nada menos que 25 reis da França foram coroados na atual Catedral, incluindo Charles VII, em 1429, conduzido pela heroína francesa Joana D´Arc. Duramente atingida durante a Primeira Guerra Mundial (cerca de 300 bombas foram lançadas sobre a cidade), a Catedral foi reconstruída nas décadas seguintes, preservando, ainda, marcas desse grande conflito. Seu acervo artístico é extraordinário, como os vitrais (dentre eles o de Chagall), suas estátuas (como a do Anjo Sorrindo), seus órgãos, etc. Tivemos o privilégio de participar de uma audição do órgão principal, o que foi uma experiência única. O Palais du Tau é tão rico em história quanto a Catedral. Residência oficial do arcebispo de Reims e dos Reis (durante a cerimônia de coroação), após a reconstrução dos danos causados pela Guerra, passou a abrigar um belo museu histórico e arquitetônico relacionado com a Catedral e às coroações reais.

Após esse passeio pela história, era hora de voltar ao motorhome para explorar outra maravilha de Reims: as maisons de champange. Nesse primeiro dia, escolhemos a Madame Pommery. A partir de 12 Euros, é possível fazer um passeio pela caves subterrâneas da marca, onde a temperatura é naturalmente cerca de 10°C durante o ano todo. Reims tem quilômetros e quilômetros de caves, muitas delas datando da era galo-romana, onde repousam milhões de garrafas de champagne. A visita às caves é imperdível. Além das caves em si, que são únicas, podemos conhecer o método tradicional de produção da champagne e degustar alguns rótulos. A visitação termina sempre na Loja de Fábrica, mas o preço ali não é diferente do preço dos supermercados (Carrefour, etc.), podendo ser até mais caro (ou seja, cuidado para não cair em armadilha para turista). Como nossa viagem envolvia compras frequentes em supermercado, já sabíamos os preços das principais marcas de champagne. Depois da visita, fomos atrás dos ingressos de uma atração extra, daquelas que vem de brinde durante uma viagem dessas, pois as datas coincidem: O Circo Arlette Gruss, que celebrava seus 30 anos em Reims. Conseguimos comprar os ingressos para o dia seguinte, em média 20 Euros/pesssoa, e, de quebra, com meu francês misturado com o jogo de cintura brasileiro, conseguimos garantir uma vaga de estacionamento na área de estacionamento dos motorhomes e caminhões do pessoal do circo. Quem já andou de motorhome sabe que ter um lugar para estacionar no centro das cidades é um luxo. Com os ingressos na mão, e com a noite caindo, era hora de descansar. Voltamos para o nosso estacionamento ao lado do Estádio e dormimos satisfeitos com as surpresas de Reims.

Na manha seguinte, eu e a Sidi saímos bem cedo. O destino: a busca urgente por tomadas elétricas. Nossas mochilas estavam cheias de carregadores, baterias e equipamentos, alguns totalmente sem carga, ávidos por energia, já que o estacionamento onde estávamos não possuía rede elétrica disponível para uso. Próximo da Notre-Dame, havia um moderno e bem servido de tomadas McDonald´s, onde tomamos um café da manhã de 2 horas...rs...rs....De quebra, enquanto saboreávamos os croissants e donuts, ainda deu para realizar algumas tarefas on-line, com o notebook. Esse McDonald´s tinha algo curioso: para entrar no banheiro, era preciso digitar uma senha num teclado ao lado da porta, que era fornecida no cupom fiscal de quem consumia algum produto no local. Pelo que descobrimos, durante muito tempo, a Europa sofreu com mochileiros, que praticamente acampavam nesses locais em busca de internet, banheiros e tomadas. Quando voltamos ao motorhome, com as baterias carregadas e os compromissos virtuais cumpridos, as crianças já estavam acordadas e prontas para ir ao parque. Novamente, a mamãe Sidi se encarregou do almoço, acompanhada de uma boa garrafa de vinho francês, enquanto eu fazia o sacrifício ir ao parque com as crianças.... que dificuldade! Ter que relaxar debaixo das árvores, num clima ameno e com ar puro, enquanto observava os filhos felizes e satisfeitos, correndo livres e eufóricos pelo ambiente... o que mais um pai pode querer?

Após o almoço, era hora de ir ao circo. Em resumo, foi um dos pontos altos da viagem. Inesquecível! Um circo daqueles que não existem mais no Brasil. Animais, palhaços, mágicos, acrobatas, tecnologia, encanto e magia por quase 3 horas de espetáculo. O brilho nos olhos das crianças nos dava a certeza da escolha bem feita. Muito dessa viagem tinha a ver com a satisfação dos nossos filhos, e esse foi um dos tantos momentos em que percebemos claramente que deu certo. O Circo Arlette Gruss deixou saudades! As fotos abaixo mostram um pouquinho das emoções vividas nesse grandioso espetáculo. Ao término, decidimos terminar o dia com chave de ouro. Já tínhamos visto antes que naquela noite ocorreria um evento chamado nuit des cathédrales, onde, por toda a frança, em datas determinadas, as catedrais abrem suas portas até a maia-noite aos visitantes, incluindo das áreas que normalmente são restritas à visitação, e oferecem um amplo leque de atrações culturais, como concertos, exposições, conferências, visitas guiadas, atividades infantis, etc. Desfrutamos desde a audição de J.S.Bach no órgão principal até uma visita à cripta medieval da catedral. As crianças participaram de uma incrível atividade, que reconstruía com recortes de papel pintados à mão a chegada do Rei Charles VII para coroação, acompanhado dos seus soldados, do clero e de Joana d'Arc. Passeamos pelas ruínas da antiga igreja onde Clóvis I foi batizado e terminamos o passeio com uma interessante visita ao acervo histórico do Palais do Tau. Final perfeito para um dia perfeito... que foi complementado com um delicioso jantar numa espécie de pub super transado, situado no amplo calçadão em frente à catedral, ao som de rock´n roll e com cervejas belgas deliciosas. Foi uma estranha sensação de heresia e devoção, curtindo aquele ambiente, digamos "politicamente incorreto", com vista para a majestosa e histórica Catedral de Notre-Dame de Reims.

No dia, seguinte, embora a vontade fosse de dormir até tarde, eu a Sidi saímos cedo novamente, dessa vez sem a pressão das tomadas. Era um momento só nosso. Com trajes de mini-maratona, saímos para uma caminhada saudável por Reims, onde descobrimos lugares únicos, como uma praça dedicada aos mortos durante a guerra (square des victimes de la Guestapo), na Rue Jeanne d'Arc, e uma padaria com croissants maravilhosos (La Mie Caline), em frente ao chafariz da Place Drouet D'Erlon. Terminado esse passeio relaxante, era hora de partir para o nosso próximo destino, há poucos quilômetros dali, a charmosa cidade de Épernay.




















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